Tsunami Interior

Ele se foi no estrondo de um trovão, e eu pude ouvir teu grito atrás das nuvens. O que escorria de seus olhos era mais que lágrima, era sangue, o mais puro e amargo sangue que eu já senti. Se eu pudesse abraçá-lo, sentir teu calor em minha carne exposta. O amado estava quase tão gélido e pálido quanto um súbito nevoeiro. Tentei não ceder, mas não tenho ilhas de solidez onde buscar força, sou um tsunami sem eficácia, uma simples onda na praia, sou indistinta e em um pulo eu morri. Agarrei-me em tuas mãos em suplício: tu só irias ao céu, se voássemos juntos.

Tempestade

Chuva. Gota dos céus que descamba em minha face e resvala, atingindo suavemente o chão.  Cai às vezes sorrateira, outras vezes turbulenta, priva-me o sono. Nostálgico som de cada gota cravando na calha; estrondos e luzes no céu me lembram o amado. O ruído do vento lá fora me assombra, e o pior fantasma da noite: A consciência. Seu espectro preso em minha mente, e seu cheiro talhado em minhas roupas são a prova de que ele, um dia, esteve comigo. Ao fundo do trovão posso ouvir teu brado, teu clamor ao chamar meu nome.  Aonde quer que esteja, agora estás comigo, a mesma chuva que o levou agora o trás de volta para mim. E gota a gota agonizo vendo cada lembrança de amor trepidar em minha mente.

Sob teu efeito

Aproxima-te de mim novamente, branca neve. De longe já sinto teu perfume, fico louco. Tua presença me consome por inteiro, fica comigo um segundo e eu perco o vigor. Me entorpece, me alucina, meu remédio, estou contigo e eu esqueço dos problemas. Tu ficas pouco e logo estou só. Eu perco o esmero, eu te quero e não te espero, preciso te sentir um pouco mais, meu vicio insano. Quiçá eu encontre no mundo outra essência avassaladora como a tua, improvável, impossível. Teu perfume desatina, eu preciso de ti, não quero estar são. Ainda que tu me leves a morte, estarei contigo até o fim de minha existência, só sei viver sob teu efeito, cocaína.

O que sou eu se não apenas um corpo morto?

Vivo em mim apenas os sentimentos,

O resto é carne, apodrece.

O que está vivo, preso nesta carne podre

Grita por liberdade.

E por que não libertar?

Grito em minha escrita que estou vivo,

Desenho formas abstratas de sentir.

Descrevo monstros,

E muitas vezes os mascaro como príncipes.

Ta aí a magia da escrita,

Nela esbanjo das palavras,

E com elas, desenho o mundo que eu quiser

Posso transformar o inferno em paraíso

E o mundo num lugar bonito.

Minha Carne Podre de Poeta